A sensação de que estamos vivendo um “surto coletivo da proteína” não é por acaso. Nos últimos anos, a proteína deixou de ser apenas um macronutriente essencial para se tornar um verdadeiro símbolo de saúde, performance e até emagrecimento. Mas será que precisamos mesmo de tudo “proteico”?
Do ponto de vista científico, a proteína é, de fato, fundamental. Ela participa da construção e manutenção dos tecidos, da produção de enzimas e hormônios, e tem um papel importante na saciedade. Estudos mostram que refeições com maior teor proteico aumentam a liberação de hormônios como o GLP-1 e o PYY, que ajudam a reduzir a fome, além de diminuírem a grelina, conhecida como o “hormônio da fome”. Isso explica por que dietas com proteína adequada podem auxiliar no controle do peso e na preservação de massa muscular.
Quando o adequado vira excesso
No entanto, “adequado” não significa “quanto mais, melhor”. A recomendação diária de proteína para a maioria dos adultos gira em torno de 0,8 a 1,2 g por quilo de peso corporal, podendo ser maior em casos específicos, como atletas ou idosos.
O problema começa quando a indústria transforma essa necessidade em excesso disfarçado de benefício, criando produtos ultraprocessados enriquecidos com proteína — como bebidas, snacks e até versões “proteicas” de alimentos que originalmente não precisariam disso.
Além disso, saúde não depende apenas de um único nutriente. Uma alimentação equilibrada envolve a combinação de proteínas, carboidratos, gorduras, fibras, vitaminas e minerais. Fibras, por exemplo, são essenciais para a saúde intestinal e também contribuem para a saciedade, mas muitas vezes são negligenciadas em produtos focados apenas no teor proteico.
Alimentação também é contexto
Outro ponto importante é o contexto em que a alimentação acontece. Comer com pressa, distraído ou em estado de estresse pode prejudicar a digestão e a absorção dos nutrientes, independentemente da quantidade de proteína ingerida. Ou seja, não é só sobre o que você come, mas como você come.
No fim, o verdadeiro risco não está na proteína em si, mas na perda de conexão com o básico: comida de verdade, equilíbrio e escuta do próprio corpo.
A proteína é importante, sim — mas não precisa estar em tudo e o excesso acabar pode prejudicando.